domingo, 23 de dezembro de 2007

Lugar-comum.

A vida é curta demais. Tão curta quanto um orgasmo, por isso também deve ser intensa como um. Mas nunca é: sempre falta dinheiro, cachaça, mulheres, vontade ou alguém pra te acompanhar. Assim segue a sociedade. O mesmo frio que te inspira a fazer loucuras é o que mata os miseráveis na madrugada. A mesma chuva que te faz querer hibernar na cama com um cobertor quente é o que massacra o sem-teto. O mesmo lindo sol que brilha e aquece com toda a sua pompa de ser a estrela-da-manhã é o que castiga no sertão. O vinho que alegra a vida é o que destrói famílias. E assim segue a vida: o doce da loucura com o amargo da verdade.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Viagem




Já era o 10° dia a bordo do cargueiro. Escondido entre contêineres. A comida e a água acabaram. Passou três dias na escuridão total. Até descobrir uma pequena fresta. Nela podia sentir um pouco da maresia. Ver o mar. E deixar o sol tocá-lo e esquentar alguns centímetros da sua pele. A fresta o acalmava. Como um colecionador admira sua nova peça a olhava.
Fugia. Não de seu país, nem de sua família, até mesmo porque nunca a conheceu. Do que fugia nem ele sabia. Mas fugia. Certa vez escutou um velho mendigo dizer que viagens moldam o caráter de um homem. Tudo isso pra ele era belo e talvez fosse isso que queria: amadurecer.
A fome começava massacrá-lo e se não bastasse a sede também o atacou sem piedade. Ele podia agüentar vários dias sem comida. Mas sem água não. De repente surtou! Saiu correndo em busca de água. Chegou ao convés. A ferocidade do sol massacrou seus olhos. Mais não importava. Ainda cambaleando mergulhou no balde do tripulante que limpava o chão. Mergulhou sua cara na água suja. E bebeu. O tripulante assustado começou atacá-lo com o rodo, o espancou até desmaiar. Quando o fugitivo acordou estava amarrado em uma cadeira. E cercado por homens. Um deles era o Comandante (sim, esse era seu nome), o capitão do navio.
- Por que está aqui? – perguntou o Comandante.
- Estou fugindo, senhor! – respondia ofegante o fugitivo.
- Mentira! Por que está aqui? – Comandante gritava.
- Já disse. Estou fugindo. Só queria amadurecer. Aprender sobre a vida. – assustado dizia o fugitivo.
Todos começaram a rir. Muitos já tentaram infiltrar no cargueiro. E tinham diversas desculpas na tentativa de justificarem a sua presença. Mas essa era patética.
- Procure as putas. Elas te ensinarão sobre a vida. – falou o Comandante.
- Senhor, me deixe ficar! Posso ser útil na tripulação. – suplicou o fugitivo.
- Rapaz, – falou o Comandante respirando fundo. – eu quero saber quem te enviou aqui!
- Ninguém, senhor!
Foi quando dois homens ao sinal do Comandante começaram a espancá-lo. O sangue escorria em seu rosto.
- Vamos, seu espião comunista! Diga pra quem você trabalha e te dou um bote e deixo você ir.
- Senhor, não sou comunista! Muito menos espião! – respondia o fugitivo ao Comandante. As lágrimas de desespero desciam e misturavam ao sangue em seu rosto. Mas aqueles homens não se importavam. Não iriam parar de bater até ele dizer o que o Comandante queria escutar. O espancavam enquanto ele inutilmente, tentava dizer que não era ninguém e que só queria fugir. Mas não conseguia. Seu corpo tremia. Sua visão sumia. Estava fraco e perto da morte.
E sem saber nem dia e hora, acordou. Em uma rocha na beira do mar. Abraçado a uma garrafa de vodka e com a cara naquilo que parecia seu vômito.

A Morte



Estava ele sentado em uma cadeira não tão velha quanto a mesa de madeira,ganhada pelos avôs quando se casaram. Nela batia os dedos. Um após o outro, impacientemente. A ansiedade tomava conta de seu corpo inteiro, os seus músculos estavam fracos e os seus ossos pesavam como nunca.
Estava com mesma sensação de quando o Brasil disputou a final da Copa de 94, aquele frio na barriga e o tempo passando lentamente. Encostou o lado direito do seu rosto naquela mesa fria. Como era boa a sensação. Despertava uma leve euforia dentro do seu corpo baleado por um misto de emoções. Nesse momento formou-se o esboço de um sorriso em seu rosto que ostentava uma expressão melancólica a algum tempo.